Estamos preparados para envelhecer?

Escrito por  Sofia Teixeira, com entrevista a Jacinto Gaudêncio, psicólogo especialista em envelhecimento, docente da Universidade do Algarve
Estamos preparados para envelhecer? Getty Images
Quando somos jovens, o mais natural é não nos conseguirmos imaginar idosos, embora tentemos. Estamos preparados para envelhecer numa sociedade tão marcada pelo culto da juventude e pela incerteza quanto ao futuro? Afinal, o que nos espera de diferente no futuro por sermos velhos?

Pensamos o futuro, mas a curto ou médio prazo. Talvez nos consigamos imaginar a nós e à nossa vida daqui a 2, 5, 10 anos… mas é mais difícil fazer essa projeção a 50. E, mesmo quando somos jovens, queremos sempre parecer mais jovens ainda, ninguém gosta que lhe ponham mais 1 ano que seja em cima, mesmo que ainda seja na casa dos vintes. Estaremos então preparados para os cabelos brancos, para as rugas, para o envelhecimento psicológico?

“Não, a maior parte das pessoas não está preparada para envelhecer, mas melhor ou pior acaba por se adaptar, até porque os sinais óbvios de envelhecimento surgem bastante antes de sermos propriamente velhos ” afirma Jacinto Gaudêncio, psicólogo e docente da Universidade do Algarve na área da psicologia do envelhecimento.

De acordo com o especialista, na maioria dos casos é durante a meia-idade, com a aproximação dos 50 anos, ou pouco depois, que somos confrontados de uma maneira mais óbvia com o nosso próprio envelhecimento e com a evidência de que nos resta menos tempo para viver do que aquele que já vivemos.

A verdade é que embora toda a gente aspire a uma vida longa, simultaneamente receamos a velhice porque temos dela uma imagem negativa: associamo-la a limitações, a uma perda de capacidades e à proximidade da morte.

Por isso, afirma Jacinto Gaudêncio, “cada vez mais se fala na necessidade de as pessoas se prepararem com alguma antecedência para a passagem à reforma e para as mudanças físicas e psicossociais associadas ao envelhecimento, de forma a estarem preparadas para essa transição e para se adaptarem da melhor forma possível aos desafios e problemas da longevidade”.

Mas o que se sabe, afinal, sobre as mudanças inerentes ao processo de envelhecimento do ponto de vista psicológico, emocional e mesmo de personalidade? De acordo com Jacinto Gaudêncio, os estudos sobre o desenvolvimento psicológico ao longo de todo o ciclo de vida comprovam que na senescência (processo de envelhecimento) a personalidade das pessoas e a sua saúde mental não sofrem mudanças significativas só por estarem a envelhecer. Da mesma maneira, o funcionamento cognitivo, mesmo registando uma maior lentidãp e perda de eficácia, na ausência de doença, pode manter níveis elevados de realização até idades muito avançadas.

“Contra o senso comum que tem tendência a fazer generalizações negativas sobre a velhice e os mais velhos, sabe-se que as pessoas idosas são muito diferentes entre si a todos os níveis”, explica o psicólogo, “havendo perfis de envelhecimento bem-sucedidos, normais e patológicos”, remata.

Foquemos-mos então nos bem-sucedidos! O que tem ou o que fazem estas pessoas para envelhecer bem? Jacinto Gaudêncio destaca que muitos estudos que procuram explicar o que distingue os percursos individuais de envelhecimento considerados positivos dos malsucedidos, sugerem que o maior ou menor desenvolvimento de um traço da personalidade - a plasticidade- explica em grande parte essas diferenças.

“A plasticidade refere-se à presença de mecanismos de adaptação psicológica  -relacionados com a chamada resiliência - que permitem aos que a desenvolveram ultrapassar as provações da vida e do ponto de vista psicológico, é  um fator favorável a uma adaptação bem-sucedida às mudanças inerentes ao envelhecimento”, concluí o psicólogo.

Talvez a resposta à pergunta “Estamos preparados para envelhecer?” seja: mesmo sem dar conta, com alguma tranquilidade e espírito positivo, vamo-nos preparando todos os dias.


Fontes:
- Jacinto Gaudêncio, psicólogo especialista em envelhecimento, docente da Universidade do Algarve